sexta-feira, 15 de abril de 2011

AMORES, CACHORROS E DESILUSÕES TELEVISIVAS


Essa é a reedição de uma história real publicada em meu outro blog, não mais existente. A história perdeu a validade, mas ainda me faz rir quando lembro dos fatos. Para os críticos, sim, eu me divirto com a ignorância alheia.

* * *

Era um domingo comum, desses que o clima é convite a companhia ou a preguiça desmedida de querer ficar em casa. Nos últimos meses, ele vivia eufórico e a razão disso era o namoro com aquela mulher de longos cabelos castanhos e semblante gentil, acreditando ser este a síntese de um romance de José de Alencar.

Naquela tarde, sentada sobre as almofadas do sofá, ela zapeava as centenas de canais que a TV por assinatura ofertava. No quarto, ele remexia sua extensa coleção de cd´s à procura de alguma música que desse o clima necessário àquela tarde romântica. As músicas selecionadas foram uma seqüência de temas melosos e rotineiros do casal, mas que ela, com seu parco conhecimento musical, esforçava-se para lembrar que eram as bandas. Identificou apenas uma e ele, apaixonado, só pensava na maravilha de estarem juntos.

Sentaram-se juntos, o barulho plástico do sofá ocre e recém encapado exprimia a percussão natural de corpos que ocupavam o mesmo espaço, convenientemente. A sinfonia de respirações só foi quebrada pelo som do telefone que insistentemente tocava, reclamava e cada vez mais alterava a dinâmica do casal. Ele atendeu ao telefone e entre a reciprocidade de olhares com ela e o fim do telefonema constatou que a casa precisava ser limpa, afinal a fatiga da limpeza é imperiosa, mesmo quando a companhia é agradável.

Já com o fim da tarde, ele, esperto, formulava meios de estender o tempo que passavam juntos, atitude natural em uma situação como a deles.
- Marina? – Falava ele, em uma voz afetada por um tom pausado. Marina? Tá com fome?
- Eu? – dislexamente respondeu.
- Quer comer alguma coisa? – insistia.
Fitando-a aguardou uma resposta. Depois, estendeu o braço e pediu que levantasse e o abraçasse. Tinha ciência de seus atos piegas, mas apreciava esses atos novelescos.
- Um suco? Sei lá! Nada, não! – finalmente respondeu.
- Ahn ! Nada. – ela firmemente decretou.
- Então ta! Se você não tá como fome, mais tarde preparo alguma coisa – disse ele.
- Ok ! - Sentenciou economicamente, como de costume. Mas que na verdade incitava uma adulação a seu temperamento mimado.
- Hein? Se você quiser comer algo peça! - Afirmava ele.
- Não, nada não – Reforçava ela.
A cena parecia retirada de um filme clichê, o homem apaixonado a disposição da mulher que namorava.
- Nossa! Eu quero ver ! – disse ela repentinamente como se tivesse um grande público como expectador.
- O que houve? - perguntava ele, olhando em volta à procura de algo que merecesse manifestação tão grandiloqüente.
- Vai passar o Tin Tin na TV, acabei de escutar. Adoro! Você vê comigo? – Falava empolgada.

- Claro! Eu via muito o Tin Tin. Tinha até os quadrinhos - Por um momento dispersou-se e ela esfregando seu nariz o trouxe ao mundo dos vivos.

- Vai começar – afirmou ela, beijando-o pela centésima vez.
Passado os créditos iniciais e vozes em off, os personagens se apresentam coloridamente.
- Bacana! Muito bom – dizia ele entusiasmado.
Minutos depois, percebeu que ela franzia as sobrancelhas num sinal claro de desapontamento e incredulidade.
- O que tá acontecendo? - Perguntou inquieto.
- Nada, não ! - disse.
- Fala amor! - ele insistiu.
- Não gostei!– resmungava ela em uma voz baixa, quase inaudível.
- De que você não gostou? – perguntou.
- Do programa, não é como eu pensava! – Afirmava resolutamente e fitando-o nos olhos.

- Por que você não gostou? - ele questionava sem entender os motivos.
- Você ficou toda alegre quando passou o comercial. Disse que queria assistir e agora desiste! Não entendo qual é! – continuou.
- É, sim! Mas passou todo esse tempo e não vi o cachorro – ela finalmente falou .
Ele estatizou e por um minuto respirou fundo, se curvou para buscar um copo suco e o tomou como se quisesse fugir do assunto, emudecer.
- Cachorro? – Repetiu, já sabendo do que se tratava.
- Sim, o cachorro! Quando eu assistia Tin Tin tinha um cachorro. Eu lembro disso! – afirmava ela, didaticamente.
Ele tossiu. Depois como se esperasse uma repreensão falou baixinho.
- É Rin Tin Tin que você assistia, amor! O que tá passando na TV é Tin Tin, o desenho animado. Eles são totalmente diferentes! – finalizou ele.
- Ah ! Não quero saber ! – Bravejou ela.
Do fato e em um raro momento de razão emocional, pensou: Ainda bem que é bonita!.

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